sábado, 27 de março de 2010

Da série: Lembranças (do Afonso)



Era um “peba”

Era uma vez....
Quando eu era criança - a minha irmã, minha única irmã - gostava de contar estórias. O padrão, sempre o mesmo, e começava ela:
- “Era uma vez...”
Normalmente, isto acontecia em uma “reunião” à noitinha, quando ela convidava a turma para contar estória. Para motivar os demais ela anunciava:
- “Bem pessoal, eu começo e depois vocês...”
E dava início:
- “Era uma vez...”

Naquela época, na nossa vidinha simples e humilde, não desfrutávamos de Rádio e TV. Telefone e Internet não estavam disponíveis pois estou indo ao passado, a década de 50. Quando Getúlio Vargas morreu a notícia correu de boca-em-boca onde morávamos. E, em tom sério falavam:
- “Getúlio Vargas morreu!...”

A minha mãe sabia ler e escrever. Era professora. Isto mesmo: p-r-o-f-e-s-s-o-r-a. Eu não me lembro muito bem como era a estrutura mas sei que ela era professora e alfabetizava as crianças, os jovens e adultos em salas mistas. A minha irmã ajudava, era como se fosse uma “auxiliar de classe...” e acho que nessa época nasceu (nela) o hábito de contar estórias.

Bem, a introdução familiar foi feita. A seguir, uma aventura vivida com o meu pai. Doces recordações do meu pai.
Foi na época em que morávamos em um rancho, no Estado de Pernambuco. Meu pai havia arrendado (a mim me parece que era ele um meeiro) uma roça a beira do Rio São Francisco. Plantava arroz, milho, feijão, batata-doce, melancia, etc. Meus irmãos mais velhos, o Jaime e o Silvano (somente muitos anos depois é que descobri que a grafia era Silvino) já haviam partido para São Paulo procurando uma vida melhor. Ficaram então o Moaci e a Ilma, mais velhos que eu  e meus referenciais. Assim era a vida, aprendíamos com os irmãos mais velhos, recebíamos conselhos, etc... Com o Moaci, de canoa, chequei a recolher a “grozeira” (uma linha grossa com vários anzóis) de pesca no Rio São Francisco, que maravilha puxar aqueles peixes. A Ilma cuidava dos pequenos, eu e o Manoel. A Ilma tinha um medo horrível de lagartixas e eu , sempre que podia, corria atrás dela com uma lagartixa amarrada em uma vara.... A minha mãe ajudava meu pai. Éramos felizes na roça.

Certa vez, meu pai me chamou e disse:

- “Filho, eu entoquei um peba lá no mato. O bicho tá demorando prá saí. Vou ter de cavá. Não estou escutando muito bem. Como você é menino, escuta bem, quero que me ajude”.

Peba, para nós, era o mesmo que “tatú-bola”.  Pelo seu instinto de defesa, o tatú-bola, ou peba, cava buracos na terra para se defender dos predadores e dos caçadores. A sua carne, se bem preparada, é saborosa para o padrão nordestino.
E lá fomos nós sem eu saber que estava em treinamento de sobrevivência. Levantamos cedo, antes do sol nascer, uma enxada, uma pá, um enxadão, o cachorro, uma cabaça d’água... Foi uma boa caminhada pelo mato, meu pai cuidando de mim avisando quando um galho de árvore estava mais baixo, mostrando ali um formigueiro que havia servido de alimento para o tamanduá, as pegadas do veado...
Chegamos ao destino. Não me recordo como, mas, meu pai havia demarcado o local onde o peba estava entocado e tinha certeza que o bicho não havia saído!! O cachorro, de nome elefante, latia e abanava a cauda entusiasmado!!!
Começamos logo a cavar (meu pai começou), o calor do sol escaldante viria em breve. De início, se me lembro bem, era um quadrado de aproximadamente 2m por 2m. Afundando um pouco meu pai perguntou:
- “Filho, está ouvindo?”
Eu respondi:
- “Não”.
Ele continuou a cavar e logo depois:
- “Filho, está ouvindo?”
Eu respondi:
- “Não”.
Eu não sabia que som ouviria, não tinha a menor noção. Também não perguntei. Nem pensar pois, se eu não soubesse o que ouvir, como poderia sair com ele outras vezes? Eu tinha muita liberdade com meu pai, gostava de ficar na companhia dele, sentar no seu colo, lhe fazer cócegas...
Continuamos cavando. O buraco estava ficando fundo, acima da cintura do meu pai e eu, do lado de fora, enquanto brincava de limpar um pouco a terra em volta apurava também a audição.
- “Filho, está ouvindo?”
- “Co-rro-que, co-rro-que, co-rro-que,...”
Era o barulho do peba cavando, coitado, tentando escapar. Mal ele sabia que tinha ali um menino que escutava muito bem!
- “Filho, está ouvindo?”
- “Co-rro-que, co-rro-que, co-rro-que,...”
- “Estou sim pai, estou”.
- “Pois é, ele está bem aqui”.
Mais algumas enxadadas, um pedaço de um galho de uma árvore qualquer travando o bicho, uma mão no seu rabo e lá estava ele.
Que alegria.
Era um peba!.

Afonso, 27/Março/2010

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